Hoje apeteceu-me entrar no camarim sozinha, no silêncio. Passo a passo, no meu ritmo, sem pressa e fechar a porta. Apagar as luzes e deixar só as do espelho. E tentar congelar este momento na melhor cápsula do tempo que até hoje conheci - as linhas escritas.
Hoje apeteceu-me olhar para mim e ver como os meus olhos brilham mais, aqui, nesta que é a minha verdadeira casa - ainda que só paredes que espero um dia virem a ser realidade - e pedir à qualquer força maior, se existir, que me deixe merecer um dia este lugar, esta arte, e que conserve em mim o encanto que me faz sentir.
Apeteceu-me conservar esta visão de miúda pequena, que se fascina sempre que pode ver as actrizes a pintar os lábios, que faz uma força enorme para levar para casa o cheiro da laca, e os pormenores todos... Que sustém a respiração cada vez que entra num teatro, e agradece aos céus por ir mergulhar em mais um sonho, e em cada mergulho é absorvida pela sensação que naquele tempo sem dimensão - que passa sempre depressa demais - o universo conspira a seu favor, e está aqui para ser feliz.
Quis hoje confessar isso ao espelho, que ainda não é mais que a força de sonhar, para que possa voltar atrás, aqui. Como se me deixasse a mim mesma uma bóia, para se um dia me perder de mim, no mar do mundo difícil das tábuas.
Espero nunca deixar de conseguir ver que, mesmo havendo na vida muita amargura, há sempre a magia do abrir do pano, e as cordas e as plumas... A efemeridade da entrega de quem empresta a pele à arte de ser boneco-veículo das letras de alguém...
Hoje quis deixar-me estar, e engarrafar num texto a substância mágica que o palco e as suas entranhas trazem, como bálsamo, ao mais fundo da minha raiz...
E desejar que nunca deixe de ver esta arte como uma criança que se deixa navegar num navio de papel, porque enquanto assim for, serei feliz...
Inês
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