sábado, 17 de janeiro de 2015

Navio de papel



Hoje apeteceu-me entrar no camarim sozinha, no silêncio. Passo a passo, no meu ritmo, sem pressa e fechar a porta. Apagar as luzes e deixar só as do espelho. E tentar congelar este momento na melhor cápsula do tempo que até hoje conheci - as linhas escritas.
Hoje apeteceu-me olhar para mim e ver como os meus olhos brilham mais, aqui, nesta que é a minha verdadeira casa - ainda que só paredes que espero um dia virem a ser realidade - e pedir à qualquer força maior, se existir, que me deixe merecer um dia este lugar, esta arte, e que conserve em mim o encanto que me faz sentir.
Apeteceu-me conservar esta visão de miúda pequena, que se fascina sempre que pode ver as actrizes a pintar os lábios, que faz uma força enorme para levar para casa o cheiro da laca, e os pormenores todos... Que sustém a respiração cada vez que entra num teatro, e agradece aos céus por ir mergulhar em mais um sonho, e em cada mergulho é absorvida pela sensação que naquele tempo sem dimensão - que passa sempre depressa demais - o universo conspira a seu favor, e está aqui para ser feliz.
Quis hoje confessar isso ao espelho, que ainda não é mais que a força de sonhar, para que possa voltar atrás, aqui. Como se me deixasse a mim mesma uma bóia, para se um dia me perder de mim, no mar do mundo difícil das tábuas.
Espero nunca deixar de conseguir ver que, mesmo havendo na vida muita amargura, há sempre a magia do abrir do pano, e as cordas e as plumas... A efemeridade da entrega de quem empresta a pele à arte de ser boneco-veículo das letras de alguém...
Hoje quis deixar-me estar, e engarrafar num texto a substância mágica que o palco e as suas entranhas trazem, como bálsamo, ao mais fundo da minha raiz...
E desejar que nunca deixe de ver esta arte como uma criança que se deixa navegar num navio de papel, porque enquanto assim for, serei feliz...


Inês

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Lar, doce lar...



O tempo começava a arrefecer. Tinha chegado aquela altura do ano em que tudo se tornava mais descolorado. Porém, foi de coração quentinho que abrimos a porta do camarim, depois de uma alegre e produtiva sessão de teatro, café e gargalhada.
As nossas personagens tinham-se tornado como amigas em comum, ao ponto de nos surpreenderem com reviravoltas e saídas espontâneas vindas das nossas próprias cabeças.
Havíamos descoberto algo mágico em trabalhar assim, entre mimos e ataques de riso. A inspiração vem à tona de uma forma ainda mais empolgante. Sabia-nos a estar realmente vivos.
Estava ali - está aqui - o futuro que realmente queremos.
Pela primeira vez, sem darmos por isso, estávamos realmente em casa.
Afinal, o nosso Camarim é o espaço que acontece em tardes como esta.



André&Inês

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mais um pedaço de nós...

Hoje, dia de sol, estávamos ambos muito bem dispostos, quando nos bate à porta uma equipa de convidados especiais: a revista online Amol, onde também colaboramos.



Vieram ao nosso Camarim, sorridentes, estando também eles numa fase de arrumação e remodelação da "casa", como nós estamos aqui. E trouxeram-nos um presente especial.
Para comemorar esta nova etapa, deles, e também a nossa, entrámos todos com o pé direito, e assim demos a nossa primeira entrevista mais extensa, onde mais uma vez, tal como aqui, temos uma conversa animada sobre nós, sobre o teatro, e sobre a mesma coisa que motivou este projecto: o amor que temos a esta arte.
Pois então deixamos a página aberta, aqui na bancada do nosso Camarim, para poderem ler: http://www.amol.pt/2014/09/entrevista-a-ines-marto-e-andre-camilo/

Bom proveito!

André&Inês

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Dona Irene Isidro e o transístor "assabonetado"...

Foto: Museu Nacional do Teatro

Hoje lembrámo-nos de uma história que vai para lá de divertida e que já há algum tempos nos contaram... É sua protagonista a extraordinária Dª Irene Isidro, uma Senhora Dona Actriz, querida, amada e admirada por milhares e senhora de méritos e talentos mais que reconhecidos e aplaudidos e com uma graça e bondade de fazer inveja a santinha! Nos palcos, foi monstro em todos os géneros,  subiu alto na revista, na comédia e na opereta e chefiou, com a sua elegância arrebatadora, as mais luxuosas apoteoses, arrancou os maiores aplausos, arrecadou os maiores elogios e esbanjou talento a rodos. Criou alguns dos mais extraordinários números patrióticos que passaram pelos palcos de revista e muitas das canções, de revistas e operetas, que hoje trauteamos, saltaram da sua boca para a boca do povo. Quem não se recorda daquela antológica "Canta lá, cachopa, uma cantiga/Salta lá, sem medo, essa fogueira/ Abre-me esses olhos, terna rapariga/Porque o teu olhar ilumina a rua inteira"? É - sim, porque continua a ser - , na verdadeira acepção da palavra, uma vedeta! Mas, para lá do reposteiro, e a tudo isso, juntava-se uma desconcertante distracção que despoletou algumas das mais divertidas histórias que, ainda hoje, deambulam pelos corredores e pelos camarins dos teatros...
A que hoje aqui trazemos tornou-se histórica e deu pano para mangas - leia-se, gargalhadas. Num certo dia de folga, a Dona Irene acordou, levantou-se e preparava-se para fazer a sua toillete matinal. Pegou num transístor, para ir ouvindo música enquanto se arranjava, e lá foi para a casa de banho. Preparou o seu banho de imersão, entrou na banheira e vá de colocar o transístor no rebordo da banheira, mesmo ao lado do sabonete... Certamente que aqui, os nossos amigos que hoje nos visitam no camarim, já estão a perceber tudo!...
Na altura de ensaboar, Dona Irene procura o sabonete, agarra, distraidamente, no transístor e enfia-o dentro de água... Vá de se ensaboar! Lá se foi a música para o maneta. E, admirada por ter deixando de ouvir a sua música, a extraordinária actriz agarra no sabonete, chega ao ouvido e exclama, aborrecida:
- Que maçada! Agora acabaram-se as pilhas...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Dona Ivone, daqui vai a nossa ovação!


Instalados - e muito bem instalados - no nosso novo camarim para dois, chegou a altura de começarmos a desembrulhar as recordações que trouxémos connosco, que fomos aprendendo aqui e ali, que fomos lendo, absorvendo. Que bom é poder partilhá-las com quem nos quiser visitar no nosso camarim, que tem porta aberta a todos.
E saído do primeiro embrulho, um artigo da revista "Nova Gente", de Novembro de 1992, onde se recorda a Dona Ivone Silva, uma das maiores vedetas de todos os tempos desse mágico género que é o Teatro de Revista.


A sua história é célebre... Veio para Belém ainda jovem e, mais tarde, emigrou para a França com a irmã Linda Silva.
Ao regressar a Portugal surge a oportunidade de integrar o elenco do ABC, depois de uma audição com o empresário e com Camilo de Oliveira, tal como o próprio confidenciou numa entrevista.
A companhia partiu, então, para Luanda e Ivone, juntamente com o elenco, ía ensaiando no barco o pouco trabalho que lhe tinham distribuído. E, como o trabalho era diminuto, Ivone andava sempre entre os bastidores, a beber todos os ensinamentos que o palco e os seus colegas lhe davam e, a certa altura, sabia já o espectáculo de cor e salteado.


Entretanto, à medida que o tempo passava, eram várias as saídas do elenco e era a jovem Ivone que ficava encarregue de substituir as colegas, chegando ao último dia do espectáculo já a ter que se vestir no palco, tais eram as suas intervenções...
Nascia, assim, aquela que é considerada uma das maiores vedetas de todos os tempos da Revista à Portuguesa.
Aqui a recordamos, com este artigo que nos caiu nas mãos aqui entre as nossas arrumações.
Até já, dona Ivone e daqui lhe enviamos a nossa sincera ovação!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O começo de algo mágico...




Algo nervosos, metemos a chave à porta. Entrámos, estava vazio. a primeira coisa que fizemos foi acender as luzes do espelho. Ficámos de imediato maravilhados... pousámos então as malas no chão, e a olhar para o reflexo um do outro, onde se lia felicidade, sentámo-nos, e começámos a recordar como tudo começou. Foi mais ou menos assim:

- André, sabes o que este espelho me lembra? Aquelas luzes dos camarotes, do Maria Vitória... ficava vidrada a olhar para a televisão, ainda com os meus 3 anos de idade, a pensar como aquilo era bonito, mesmo sem fazer ideia do que era.

- Sabes uma coisa que me lembro... Do cenário do Corvo Pós-Moderno. Aquilo tinha um prédio, não é? E havia umas janelas rentes ao chão, e eu achava aquilo muito estranho.

- Ai, o Corvo Pós-Moderno! Eu achei tanta graça àquilo. Aquela música "Eu sou um corvo..." e depois com o bico, e aquela voz, tão engraçada do Sr. Raposo... Ainda não tinha idade para perceber nada do texto, mas achei logo graça!

- O "Tem a Palavra a Revista" é mesmo especial. É curioso... passados tantos anos quando revi as revistas... tinha tanta coisa presente. E a magia era a mesma! Não sentiste isso?

- Completamente. E o mais giro é que quando estou a rever, parece que me sinto criança outra vez. Dá ideia que é assim uma espécie de cápsula do tempo, não é? Olha, comigo foi esse e aquele da Velha de Vilar de Perdizes, mas esse foi antes, não foi?... Ah, lembras-te, quando eu queria descobrir esse, e não sabia dizer nada, só sabia que era a Maria João Abreu, a fazer de velha, com um xaile laranja,, e um lenço escuro na cabeça... e que tinha um pau... e falava muito depressa a rimar... Ahahahah! E depois queria fazer um texto assim, e foi por causa dessa rábula que descobri que se chamava cegarrega, lembras-te?

- Sim ahahah é mesmo um regresso ao passado, por umas horas, voltamos a ser crianças. Eu gostava tanto da vedeta da pluma... Era a "Lucinda com penas na cabeça "... Sabia lá que eram plumas e que a Lucinda era a Maria João Abreu! Eu estranhava era ela não falar à norte...

- Que giro! Eu penso que a esse, ao início, não achei muita graça... como aquilo era tão intenso, e com aqueles lábios vermelhos, dá-me ideia que eu tinha medo, mas também era tão pequena... Agora é um dos meus preferidos! Olha, foi mais ou menos a mesma coisa, com aquele número dos fadistas, sabes? Também tinha medo do Nuno Berreiro, que fazia o Heitor Lourenço... devia ser por se torcer todo, não sei... mas agora também é dos quadros que gosto mais, que espectáculo! Quem me dera ter visto ao vivo!

- Desse eu lembrava-me vagamente. Mas a revista que eu sabia quase toda era o "2001 Odisseia no Parque". Tinha uma especial predilecção pelo Companhia, no quadro de rua. E no travesti do Fernando Mendes ahahah foi aí que aprendi o que eram pescadinhas de rabo na boca . Durante uma data de anos lembrei-me disso tudo. E a Cristina Oliveira com a casa dividida... E o quinteto lá com os frades ou que era, adorava aquilo ahahah. E a Cristina Areia a dar-lhes com o saco na tromba ahahahahah essa Revista nunca me saiu da cabeça!

- Olha, esse da Cristina Oliveira, da Varina da Lapa ou Tia da Madragoa, ainda hoje adoro isso! E valeu-me muito tempo conseguir explicar quem ela era, porque não sabia os nomes deles, como não sabia ler, não é? Então eu muito pequenina, a querer falar dela dizia "Ó pai, aquela da voz grossa, a que fazia de peixeira! Tu sabes, tu também gostas dela!"... Era tão giro... e esse dos Frades, lembro-me que por causa disso, cada vez que ia passar férias à Figueira, que era todos os anos, ia sempre no carro a cantar "Figueeeeiraaaa, Figueira da Fooooz!"

- Mas no meio das Revistas todas... o meu carinho ia para todos... Mas a Maria João, não sei... Era tão especial. Gostava mesmo dela! Era por causa da Lucinda do medico de família! A Marina e a Maria João tornaram-se desde cedo os meus amores teatrais, são muito especiais.

- Pois, eu sobre elas já tudo o que diga é pouco. A Maria João há-de ser sempre o primeiro símbolo do meu amor ao teatro, e a primeira pessoa que me prendeu àquilo e me fez de alguma forma logo sonhar em estar ali... tenho um carinho por ela que acho que só tu entendes... E depois a Marina... a Marina é... não dá para explicar, é um amor que venha lá o que vier acho que fica para a vida... Ai olha, por falar em coisas que ficam, sabes a música do Troilaré... aquela do "Canta lá Lisboa, fadista e bairrista...". Isso ficou-me na cabeça de tal maneira que eu lembro-me que andei meeeeses a cantar aquilo, dentro de casa, no meio da rua, era em todo o lado, os meus pais já não me podiam ouvir! Mas depois a parte mais gira é que tanto cantei que a coisa distorceu-se e para o fim já era "Até que a voz te doa, e viva a lagartixa!"... Olha, o que eu me ri, quando voltei a ouvir a música e a lembrar-me disto! Ahahahah!

- E a do "Ribeira, Ribeira, tão velha e tão nova na voz regateira tens sempre uma trova."? Levei séculos a cantar essa. E passados muitos anos reencontrei a letra na net... E não é que a melodia me veio à cabeça????

- Essa não era a do Fernando Mendes, que aparecia vestido de preta, e que no fim dizia adeus e levava com a cortina na cara? Lembro-me dessa imagem, desde pequena também! Ah, e do telão a dizer Teatro Maria Vitória, achava aquilo tão bonito... Ah, e não sei se já te contei, sabes que eu antes quando era pequena, como eles diziam Parque Mayer muitas vezes, nos finais, eu pensava que aquilo era um parque de diversões, com montanhas-russas e assim, e como era Mayer, que vinha de Abelha Maia...


E foi entre memórias com sabor doce e gargalhadas que inaugurámos o nosso Camarim, para partir à aventura. De malas abertas, para começar a pendurar desejos e amores, e de porta aberta também, para que se espalhe esta sensação que nos dá vida, a quem quiser entrar.

André&Inês