Algo nervosos, metemos a chave à porta. Entrámos, estava vazio. a primeira coisa que fizemos foi acender as luzes do espelho. Ficámos de imediato maravilhados... pousámos então as malas no chão, e a olhar para o reflexo um do outro, onde se lia felicidade, sentámo-nos, e começámos a recordar como tudo começou. Foi mais ou menos assim:
- André, sabes o que este espelho me lembra? Aquelas luzes dos camarotes, do Maria Vitória... ficava vidrada a olhar para a televisão, ainda com os meus 3 anos de idade, a pensar como aquilo era bonito, mesmo sem fazer ideia do que era.
- Sabes uma coisa que me lembro... Do cenário do Corvo Pós-Moderno. Aquilo tinha um prédio, não é? E havia umas janelas rentes ao chão, e eu achava aquilo muito estranho.
- Ai, o Corvo Pós-Moderno! Eu achei tanta graça àquilo. Aquela música "Eu sou um corvo..." e depois com o bico, e aquela voz, tão engraçada do Sr. Raposo... Ainda não tinha idade para perceber nada do texto, mas achei logo graça!
- O "Tem a Palavra a Revista" é mesmo especial. É curioso... passados tantos anos quando revi as revistas... tinha tanta coisa presente. E a magia era a mesma! Não sentiste isso?
- Completamente. E o mais giro é que quando estou a rever, parece que me sinto criança outra vez. Dá ideia que é assim uma espécie de cápsula do tempo, não é? Olha, comigo foi esse e aquele da Velha de Vilar de Perdizes, mas esse foi antes, não foi?... Ah, lembras-te, quando eu queria descobrir esse, e não sabia dizer nada, só sabia que era a Maria João Abreu, a fazer de velha, com um xaile laranja,, e um lenço escuro na cabeça... e que tinha um pau... e falava muito depressa a rimar... Ahahahah! E depois queria fazer um texto assim, e foi por causa dessa rábula que descobri que se chamava cegarrega, lembras-te?
- Sim ahahah é mesmo um regresso ao passado, por umas horas, voltamos a ser crianças. Eu gostava tanto da vedeta da pluma... Era a "Lucinda com penas na cabeça "... Sabia lá que eram plumas e que a Lucinda era a Maria João Abreu! Eu estranhava era ela não falar à norte...
- Que giro! Eu penso que a esse, ao início, não achei muita graça... como aquilo era tão intenso, e com aqueles lábios vermelhos, dá-me ideia que eu tinha medo, mas também era tão pequena... Agora é um dos meus preferidos! Olha, foi mais ou menos a mesma coisa, com aquele número dos fadistas, sabes? Também tinha medo do Nuno Berreiro, que fazia o Heitor Lourenço... devia ser por se torcer todo, não sei... mas agora também é dos quadros que gosto mais, que espectáculo! Quem me dera ter visto ao vivo!
- Desse eu lembrava-me vagamente. Mas a revista que eu sabia quase toda era o "2001 Odisseia no Parque". Tinha uma especial predilecção pelo Companhia, no quadro de rua. E no travesti do Fernando Mendes ahahah foi aí que aprendi o que eram pescadinhas de rabo na boca . Durante uma data de anos lembrei-me disso tudo. E a Cristina Oliveira com a casa dividida... E o quinteto lá com os frades ou que era, adorava aquilo ahahah. E a Cristina Areia a dar-lhes com o saco na tromba ahahahahah essa Revista nunca me saiu da cabeça!
- Olha, esse da Cristina Oliveira, da Varina da Lapa ou Tia da Madragoa, ainda hoje adoro isso! E valeu-me muito tempo conseguir explicar quem ela era, porque não sabia os nomes deles, como não sabia ler, não é? Então eu muito pequenina, a querer falar dela dizia "Ó pai, aquela da voz grossa, a que fazia de peixeira! Tu sabes, tu também gostas dela!"... Era tão giro... e esse dos Frades, lembro-me que por causa disso, cada vez que ia passar férias à Figueira, que era todos os anos, ia sempre no carro a cantar "Figueeeeiraaaa, Figueira da Fooooz!"
- Mas no meio das Revistas todas... o meu carinho ia para todos... Mas a Maria João, não sei... Era tão especial. Gostava mesmo dela! Era por causa da Lucinda do medico de família! A Marina e a Maria João tornaram-se desde cedo os meus amores teatrais, são muito especiais.
- Pois, eu sobre elas já tudo o que diga é pouco. A Maria João há-de ser sempre o primeiro símbolo do meu amor ao teatro, e a primeira pessoa que me prendeu àquilo e me fez de alguma forma logo sonhar em estar ali... tenho um carinho por ela que acho que só tu entendes... E depois a Marina... a Marina é... não dá para explicar, é um amor que venha lá o que vier acho que fica para a vida... Ai olha, por falar em coisas que ficam, sabes a música do Troilaré... aquela do "Canta lá Lisboa, fadista e bairrista...". Isso ficou-me na cabeça de tal maneira que eu lembro-me que andei meeeeses a cantar aquilo, dentro de casa, no meio da rua, era em todo o lado, os meus pais já não me podiam ouvir! Mas depois a parte mais gira é que tanto cantei que a coisa distorceu-se e para o fim já era "Até que a voz te doa, e viva a lagartixa!"... Olha, o que eu me ri, quando voltei a ouvir a música e a lembrar-me disto! Ahahahah!
- E a do "Ribeira, Ribeira, tão velha e tão nova na voz regateira tens sempre uma trova."? Levei séculos a cantar essa. E passados muitos anos reencontrei a letra na net... E não é que a melodia me veio à cabeça????
- Essa não era a do Fernando Mendes, que aparecia vestido de preta, e que no fim dizia adeus e levava com a cortina na cara? Lembro-me dessa imagem, desde pequena também! Ah, e do telão a dizer Teatro Maria Vitória, achava aquilo tão bonito... Ah, e não sei se já te contei, sabes que eu antes quando era pequena, como eles diziam Parque Mayer muitas vezes, nos finais, eu pensava que aquilo era um parque de diversões, com montanhas-russas e assim, e como era Mayer, que vinha de Abelha Maia...
E foi entre memórias com sabor doce e gargalhadas que inaugurámos o nosso Camarim, para partir à aventura. De malas abertas, para começar a pendurar desejos e amores, e de porta aberta também, para que se espalhe esta sensação que nos dá vida, a quem quiser entrar.
André&Inês